COMENTANDO:
A louca da casa

Imaginação não falta a Rosa Montero, principalmente neste livro que, numa escrita tão diferente de tudo o que já fez, retrata sua reflexão sobre a escrita, sobre o ofício de escrever, sua ligação com o amor e paixão, com o ódio, com a vida, com a morte e, demonstra a linha tenue que separa a realidade do imaginário.
É, como protagonistas da nossa própria história de vida, “nós inventamos nossas lembranças”: “nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos”, o que em síntese significa para Rosa que inventamos a nós mesmos.
Ficção, ensaio, conto ou romance, entendam como quiserem, é justamente esta a pretensão de Rosa, que cada um acredite no que quiser, é o humor sempre destacado nas palavras da autora, uma autobiografia um tanto quanto imaginária, recheada de biografias de grandes escritores de várias épocas.
Assim, cheio de pegadinhas, do real misturado ao fictício, cheio de imaginação, na medida em que a vida imaginária como diz Rosa é tão real como a vida real, ela ilustra a realidade, ela completa o vazio, nos remete a refletir sobre aquilo que imaginamos, pois, quando deixa de ser uma ferramenta para a construção da pessoa, ou seja, quando a imaginação começa a destruir a personalidade do ser humano, se chega a loucura, onde a questão não é a impossibilidade de se controlar a imaginação mas, de não perceber o real.
Real ou imaginário é após a imaginação e a loucura, que Rosa introduz o medo. Medo do real, do imaginário, medo da vida, medo da morte.
Refletir sobre temas diários da vida, compreender o que somos, quem somos, como nos tornamos quem somos é a meta principal da escritora. Somos fruto de nossas escolhas ou contingências? Destino? Invenções? Experiências lembradas, contadas, ouvidas e/ou inventadas? Certo é que para ser, precisamos nos narrar e nesta narração há muita conversa fiada. Nesta medida, toda autobiografia é ficcional e toda ficção, autobiográfia (Barthes apud Rosa).
Escrever para Rosa é estar habitado por fantasias, devaneios que em ocasiões ao invés de um dom podem ser um castigo, neste último caso, quando a fantasia desencadeia cenas horripilantes de um acontecimento real e trágico. A graça de ser escritor, no entanto, é escrever constantemente: as palavras ruminam no pensamento e borbulham o tempo todo no cérebro e, muitas vezes não acabam em uma narrativa, é a imaginação lutando contra a morte.
O compromisso do escritor, por sua vez, para Rosa é estar alerta contra o senso comum, contra seus próprios preconceitos, contra ideias venenosas, pesadas, herdadas sem nenhum questionamento que se instalam em nosso cérebro.
Escrever é uma forma de pensar e assim sendo deve ser o mais livre e limpo possível. Se escreve em primeiro lugar para si mesmo, somente depois para multidões, para Rosa esta é a necessidade precípua dos escritores: indigentes do olhar alheio. Ora, não é este o objetivo precípuo de todos? Sermos olhados, amados?
Motivo pelo qual, a leitura do livro nos remete não somente a visão da escritora sobre a arte de escrever, ofício dos escritores, mas à visão mais íntima sobre questões cruciais da vida, que podem fazer a diferença na história de cada um.

Leia, aproveite, reflita e pense sempre que você pode fazer diferente!
Comentando postado em 14/09/2015

Autor: Rosa Monteiro
Categoria: Adulto
Editora Ediouro Editora
Publicação: 08/02/2004
1ª Edição
Fonte: Link:

post de: Tânia Mara Lourenço Vesentini

AUTORIA DO LIVRO

Rosa Monteiro




Nascida em Madrid, no ano de 1951, estudou jornalismo e psicologia e colaborou com diversos grupos de teatros independentes. Trabalhou em vários meios de comunicação. Atualmente, é colaboradora do principal jornal espanhol, ‘El País’. Escritora de romances, contos e novelas, também infantis, ficções, ensaios, Rosa Montero fez seu universo no meio das letras, das palavras, do estudo e compreensão da alma humana.Apaixonada pela leitura e a escrita desde a tenra idade, por conta de uma tuberculose que a afastou da convivência com outras crianças entre os cinco e os nove anos, fase esta que Rosa evita falar, se aprofundar, apenas menciona que não foi realmente criança e em adulta não é totalmente adulta.Sua vasta obra está traduzida nas mais diversas línguas. Vários de seus escritos foram publicados no Brasil, entre eles a “A Louca da Casa”, pelo qual recebeu dois prêmios, um deles de melhor livro de 2003.


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