COMENTANDO:
História de mulheres

Dentre tantos que me fascinam, o escolhido foi um livro de Rosa Montero, a qual me envolveu inicialmente com “A Louca da Casa”, título sugestivo a um adjetivo cunhado às mulheres, em todos os tempos passados e, pasmem, até neste século XXI. Bem, mas isto é outra história.
Para hoje, o livro a ser escolhido deveria tratar do gênero humano, especialmente do feminino e, para tanto, nada menos que o livro “História de Mulheres”.
De fácil leitura e compreensão, pode ser lido como um processo, do final para o começo, como também do meio para o fim ou para o início. Tanto faz a ordem escolhida. O resgate da memória de cada uma das mulheres selecionadas por Rosa, engrandece o gênero feminino, engrandece a história da humanidade.
A introdução é um breve retrato da posição da mulher ao longo dos tempos, em diferentes períodos, em diferentes sociedades. Os capítulos que se seguem, descrevem quinze histórias diversas, sobre mulheres diversas, enunciadas em pequenas biografias ou ensaios, recheados de intervenções e percepções únicas que só poderiam advir de Rosa Montero.
O que mais me deixou curiosa, foi que não trata apenas de mulheres admiráveis, fascinantes, sábias, guerreiras, criadoras, reformadoras, aventureiras, alguns perfis retratam mulheres calculistas, dominadoras, pérfidas e insanas, mas, todas com algo em comum: desafiadoras das normas vigentes à sua época.
Reconhecidas por Rosa como "sobreviventes" de seu tempo, da sociedade, de suas próprias angústias, medos, ansiedades e desejos, são protagonistas de suas próprias histórias, apesar de subjugadas tanto do ponto de vista dos usos e costumes, quanto do direito.
Fazer a diferença no mundo, a meu ver, deve ser o objetivo mestre de todos os gêneros humanos. Conhecer histórias de mulheres que, mesmo invisíveis aos olhos da época em que viveram, lutaram não somente contra as intempéries e subjugação da mulher, principalmente nos séculos XIII, XIX e início do XX, mas contra suas próprias dores, sentimentos mais íntimos, é algo fascinante não somente pelo lado histórico, mas, pelo conhecimento da alma humana.
Escolho para exposição a ordem cronológica de nascimento destas grandes mulheres, com exceção das travestidas de homem, muitas das quais, marcadas pela limitação de uma existência plena, pela injustiça social, pelo tratamento diferenciado dos gêneros, pela impossibilidade de estudar, de pensar, de ser. 
Inicialmente, destaco Mary Wollstonecraft (1759), que transpôs as barreiras da incompreensão e, por meio de seus escritos, lutou pela liberdade do homem no período da Revolução Francesa e, posteriormente pela liberdade da mulher - para ela a liberdade era de todos ou de ninguém. Posteriormente, se torna a precursora da “Reivindicação dos direitos da mulher”, título do livro que lhe rendeu fama e o custo terrível de ser uma mulher em posição tão diversa das reservadas às mulheres de sua época. 
Travestidas de homem, como Amandine Aurore Lucile Dupin (1804), que assinava George Sand, pseudônimo masculino utilizado inicialmente nos seus escritos, ou como as Irmãs Brontë, autoras de três romances atemporais: “Jane Eyre” de Charlotte (1816), “O morro dos ventos uivantes” de Emily (1818) e “Agnes Grey” de Anne (1820), publicados com pseudônimos igualmente masculinos, respectivamente, Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell, são transportadas para um mundo de liberdade pessoal, ou, ainda, Isabelle Eberhardt (1877), escritora suíça, também chamada Nicolás Podolinsky, também tida como Mahmoud Saadi, galgou o mundo vestida de homem e morreu sem descobrir se era anjo ou demônio, conforme suas próprias palavras. 
Sequestradas, prisioneiras dentro do próprio corpo ou enclausuradas em manicômios, como a grande escultora Camille Claudel (1864), nascidas no tempo e no lugar errado, muitas não puderam ser.
Apesar de poder se inventar, o mesmo se aplica a Lady Ottoline Morrell (1873), pois seus anseios intelectuais, artísticos, filantrópicos e espirituais, que a distinguiam de todos ao seu redor, foi o que a tornou incompreendida, isolada e solitária.
María Lejárraga (1874), escritora das obras assinadas pelo marido Gregorio Martinez Sierra, um dos mais conhecidos dramaturgos da Espanha, conseguiu sair do silêncio, publicando dois livros autobiográficos, um dos quais enuncia o fato de ser a escritora das obras de Gregorio.
Aurora Rodríguez Carballeira(1879), ficou conhecida por assassinar sua filha Hildegart Rodríguez (1914), uma menina prodígio, cheia de força e de alegria, uma das pessoas mais ativas de seu tempo, na luta pela reforma sexual na Espanha.
Alma Mahler (1879), notável pianista e compositora, abdicou de suas aspirações, ao se juntar a vários gênios de sua época, com os quais se casou ou teve apenas casos amorosos. 
Zenobia Camprubí (1887) destruiu seu eu, diluiu sua personalidade na de seu homem, Juan Ramón, se convertendo em sua companheira inseparável e colaboradora do poeta em todos seus projetos literários, sem nenhum reconhecimento.
Foi nessa época em que a posição peculiar da mulher, prolongamento do homem, era demarcada entre honesta (serva do lar) e ousada ou erótica que nasce Agatha Mary Clarissa Miller (1890). Já com o nome de seu marido Agatha Christie, ao aceitar o desafio de sua irmã, começa sua jornada literária, introduzida em história policial (“O Misterioso Caso de Styles”), onde o assassino somente seria do conhecimento do leitor no final do livro, o que passa a caracterizar seus livros.
Margaret Mead e Laura Riding nasceram no ano de 1901. Margaret Mead foi uma das grandes mulheres do séc. XX, cujo trabalho foi centrado em aspectos psicológicos, culturais, sociais, comportamento sexual, mudança cultural, inclusive da infância e adolescência. Foi pioneira na valorização das diferenças e na utilização da fotografia para documentação de pesquisa. Não se pode dizer o mesmo de Laura Riding. Pérfida, dominadora, perversa e mística (acreditava ter poderes sobrenaturais), destruiu tudo e todos que com ela se relacionavam. Era admirada por não ser entendida. 
A pintora mexicana Frida Kahlo (1907), se fez personagem de sua própria fatalidade: poliomelite e um acidente de carro que a dilacerou o corpo, mas, não a alma e a garra pela vida.
Simone de Beauvoir (1908), ícone do feminismo e integrante do movimento existencialista, cuja obra revelou sua vida e o retrato da época em que viveu, realizou seus sonhos de infância: ser escritora e o de ser uma mulher.
Livro que trata do gênero humano, especialmente do feminino, é um incentivo aos homens e mulheres de todos os tempos, na busca de uma sociedade mais justa e igualitária em direitos, deveres e obrigações.


E, aqui confesso a vocês que, após a leitura da vida dessas mulheres "sobreviventes" e, para mim, vitoriosas, me resta ainda uma pergunta que não se cala: Por que, ainda hoje, mulheres bem sucedidas profissionalmente, financeiramente, socialmente e emocionalmente (sim, por que não?), se permitem viver a sombra de um homem?

Comentando postado em 27/08/2015

Autor: Rosa Monteiro
Categoria: Adulto
Editora Agir
Publicação: 10/01/2008
Fonte: Link:

post de: Tânia Mara Lourenço Vesentini

AUTORIA DO LIVRO

Rosa Monteiro





“Todos los libros te enseñan algo, te curan,

gracias a ellos puedes vivir”

Rosa Montero

Nascida em Madrid, no ano de 1951, estudou jornalismo e psicologia e colaborou com diversos grupos de teatros independentes. Trabalhou em vários meios de comunicação. Atualmente, é colaboradora do principal jornal espanhol, ‘El País’. Escritora de romances, contos e novelas, também infantis, ficções, ensaios, Rosa Montero fez seu universo no meio das letras, das palavras, do estudo e compreensão da alma humana.

Apaixonada pela leitura e a escrita desde a tenra idade, por conta de uma tuberculose que a afastou da convivência com outras crianças entre os cinco e os nove anos, fase esta que Rosa evita falar, se aprofundar, apenas menciona que não foi realmente criança e em adulta não é totalmente adulta.

Sua vasta obra está traduzida nas mais diversas línguas. Vários de seus escritos foram publicados no Brasil, entre eles a “A Louca da Casa”, pelo qual recebeu dois prêmios, um deles de melhor livro de 2003.




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