COMENTANDO:
Numero Zero

uem já leu Umberto Eco (“O Nome da Rosa”, “Pêndulo de Foucault”, dentre outros) vai se surpreender com o seu mais recente lançamento, “Número Zero”, que foge da complexidade que norteia suas obras anteriores e, retrata um discurso mundial atual e recorrente nos países democráticos, sobre o direito de informar e ser informado.
Não se trata como diz Umberto Eco de um “tratado jornalístico”, nem tampouco de um “manual de mau jornalismo”, como afirmam outros, mas de uma crítica severa que enseja sérias reflexões sobre o Estado e a sociedade atual, neste mundo globalizado.
É justamente neste período marcado pela manipulação dos veículos de comunicação, que Umberto Eco retrata com muita propriedade (além de escritor, filósofo, é semiólogo e linguista) os bastidores de um possível jornal italiano, jornal este ainda em vias de implantação, que em nada difere de muitos instalados em nosso país atualmente.
Destacando formas tão atuais e presentes nos meios de comunicação, de burlar a realidade, de enganar e manipular a opinião pública, de difamar opositores, chantagear, de menosprezar a inteligência de seus leitores, o jornal inventado por Eco conta a história sobre “os limites da informação”.
De leitura aparentemente rápida e marcado por ironia, humor e sarcasmo, permeado de fatos históricos acontecidos na Itália nos anos 90 e de referências literárias, o livro é uma obra ficcional, que deve ser lido também nas entrelinhas.
Isto porque, está embutido no enredo não apenas o fracasso na experiência de criação de um jornal sensacionalista, teorias conspiratórias, assassinato e até romance entre dois personagens mas, uma enorme crítica aos meios do comunicação, ao uso excessivo do telefone e consequentemente da internet, à cultura de massas, aos agentes públicos ladrões, ao Estado ineficiente e à sociedade passiva que aceita tudo como natural.  
Escolhido para vivenciar e ambientar a história o ano de 1992, ano este assinalado pelo início da investigação mãos limpas (“Mani Pulite”) e de escândalos de corrupção, que arruinaram com a “carreira” de muitos políticos italianos daquele período, o livro se baseia não somente nos fatos reais mas, também, nos mistérios não solucionados de muitos destes fatos, que abalaram a sociedade italiana da época, e que se mostram muito atuais em nosso país no presente momento.
Citando clichês jornalísticos, frases famosas, encenações, insinuações, sobre o funcionamento da edição de um jornal, papel assumido por muitos meios de comunicação atuais no Brasil e no mundo, a história é narrada em primeira pessoa por seu protagonista, Colonna, um tradutor de alemão e jornalista de segunda linha, decepcionado com a vida pessoal e profissional que, começa contando de uma forma irônica um brevíssimo período de sua juventude, suas falhas pessoais e profissionais e o seu engajamento em uma experiência que poderia ser a salvação de sua pessoa.
Convidado por Simei, antigo professor universitário, para escrever um livro que diga o contrário do que aconteceu na experiência da criação de um novo jornal “Amanhã”, que não passaria de doze números experimentais: doze números zero (número zero é a edição teste de um jornal, para circulação interna), não para informar mas, sim, por meio de chantagens, difamações e execução de serviços escusos a seu editor, obter ganhos pessoais para seu mentor, o comendador Vimercate,  Colonna faz parte da exótica equipe editatorial.
Referida equipe é composta também por Maia, uma mulher solteira, como ela própria se apresenta, “quase formada em letras” que trabalhou em uma revista de celebridades, organizando a tocaia de fotógrafos e encontros com paparazzi; por Braggadocio, um redator paranóico que possibilita Eco narrar fatos reais com base em teorias estapafúrdias, e que criam uma nova notícia, tão igual à escolha de fatos a serem noticiados em nossos meios de comunicação, ao estilo jornalístico de nosso país; por Cambria, cuja experiência jornalística era garimpar histórias em prontos-socorros e delegacias; por Lucidi, profissional com experiências profissionais duvidosas; por Palatino, criador de semanários de jogos e passatempos e Constança, cujo cargo ocupado por anos “chefe de composição de jornais”, está hoje em desuso.
A história transpassa a ficção e entra na história real, fala da operação Gladio, de teorias conspiratórias, do caso da loja maçônica P2, do Papa I e seu assassinato, do serviço secreto manobrando atentados terroristas, cita listas e listas de enumeração de fatos, se mostrando até mesmo enfadonho, que nos faz pensar se tudo é verdade ou não.

Este modo irônico de pontuar as fragilidades do mundo moderno e o direcionamento que estamos dando, o “Amanhã” ironicamente é o hoje vivenciado, é mais que um estímulo, é uma reflexão necessária se quisermos um mundo melhor.
Comentando postado em 04/10/2015
Autor: Umberto Eco
Categoria: Especial
Editora Record
Publicação: 08/05/2015
1ª Edição
Fonte: Link:

post de: Tânia Mara Lourenço Vesentini

AUTORIA DO LIVRO

Umberto Eco




Umberto Eco, nascido na Itália - Alessandria em 1932, passou do estudo do direito (recomendação de seu pai) para a estudo da filosofia. Se tornou escritor com quase 50 anos com a obra “O nome da Rosa” (1980), que lhe rendeu prêmios e fama. Referida obra, fruto do seu conhecimento sobre a educação da época medieval, objeto de estudos da tese de doutorado apresentada na década de cinquenta do século passado, serviu de base para um filme e é tema de projetos acadêmicos.A partir daí, Eco se torna conhecido não somente no mundo acadêmico, onde desenvolveu trabalhos sobre filosofia medieval, literatura, fenômenos de cultura e comunicação de massa, mas no mundo todo como romancista.Continua a escrever e publicar ensaios e, lançou em 1984 seu segundo romance “O Pêndulo de Foucault”. Concomitantemente com a escrita de ensaios, Umberto Eco publica mais romances: “A ilha do dia anterior” (1994); “Baudolino” (2000); “A Misteriosa chama da Rainha Loana” (2004); “O Cemitério de Praga” (2010).Umberto Eco, pensador de referência mundial, crítico fervoroso do crescimento desenfreado da tecnologia no processo de disseminação de informação, é uma boa leitura para compreensão do mundo hipermoderno.


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